#30 - O Grande Inverno da Rússia

se soubessem as coisas que os esperam, poucas pessoas se aventurariam a crescer, dizia minha avó. só muitos anos depois de sua morte é que entendo essas palavras encharcadas de amargura, como também é hoje meu coração.

“ninguém te conta que dói. doem ossos, dói a alma, dói a conta bancária, dói um amor ou mesmo a falta dele”, dizia ela, enquanto a idade escorria feito avalanche por seu corpo, devastando tudo que encontrava pela frente.

nesses momentos seus olhos eram como janelas fechadas, mesmo que abertos. e ela olhava através de mim esquecida de seus dedos entre meus cabelos. o grande inverno devastava com uma velocidade impressionantemente rápida não somente seu corpo, mas sua mente também.

eu tentava com afinco não perceber que atrás das lentes grossas dos óculos bifocais e dos olhos verdes de catarata, ela já não estava mais lá.

ela viajava no tempo, apesar de suas pernas não terem mais força para deixar o quarto onde estava, nem mesmo para levantar da cama. com o vendaval em sua mente falava de eventos que não presenciei. pessoas que não conheci. pedia para chamar seu pai e sua mãe, mortos muitas dezenas de anos antes.

com os dedos ainda entre meus cabelos esquecia meu nome, aniversário e até mesmo quem era. e é como se a vida, de uma maneira muito irônica e nada graciosa, se invertesse; agora todos os cuidados que me foram prestados na infância, precisavam ser retornados a quem me os havia dado.

se em 1988 ela ficava noites acordadas por causa de meu choro recém nascido, agora seu pranto noturno me fazia lembrar da morte que avançava a passos lentos e cruéis.

queria poder carregá-la no colo, como ela fez comigo em um tempo do qual nenhuma de nós é capaz de recordar, mas como numa reviravolta em um enredo de extremo mal gosto, enquanto me despeço dela gero outra vida em minhas entranhas. 

lembro que somos bichos. o tempo de metáforas fica para trás. nascemos, crescemos, nos reproduzimos e morremos, como ensinou a professora no primário. doem minhas tripas, sou chutada por dentro. tenho náuseas. meu corpo aumenta sem meu consentimento. sinto suas dores em mim, em todo lugar dói. dói meu coração. 

a morte vai levando, uma a uma as pessoas que amamos. e é difícil não levar para o lado pessoal tanta perda. o tempo é implacável e extremamente cruel.

a dor me faz pensar em coisas nas quais nunca acreditei. após sua morte procuro sinais dela no bebê que acaba de nascer. tento acreditar em uma reencarnação para que não precise me despedir.

ter filho dói. e num piscar de olhos te doerão também os netos. tendo sorte, e um pouco de azar, também doerão bisnetos.

dói o abraço que se aproxima e mesmo o beijo que se parte. 

- imagina meu bem, viver não é nada disso - diz minha avó, muitos anos mais tarde, por meio da boca do meu filho.



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📅 Dicas da semana
📚 Sobre livros e leituras:
- Lendo dois livros que estou amando: “Na Terra somos belos por um instante”, do Ocean Vuong, em doses homeopáticas para poder reter todo sua beleza, e acelerando em “Os Anos“, da Annie Ernaux, para poder participar do encontro da “Críticas Instantâneas” ainda hoje

- 5 livros sobre terapia para quem já ama ou quer começar a fazer

- Adorei esse site que te ajuda a encontrar sua próxima leitura - repito: livros que de fato você irá ler

📺Para assistir:
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- Eu amo documentários, talvez vocês já tenham percebido. “Mischa e os lobos” conta a história de uma criança judia que sobreviveu ao Holocausto ao se esconder na floresta e ficar amiga de uma alcateia de lobos. Uma história intrigante e cheia de plot twists (Disponível na Netflix)

🎵 Para ouvir:
- Esse mês o Tiny Desk homenageia artistas e a música latina e essa apresentação está mais que especial

- Já ouviu Greta Van Fleet? Comece por essa música que em alguns momentos parece ser uma canção inédita perdida em algum estúdio e recém encontrada do Led Zepellin

🧶Outras Dicas:
- Essa exposição online que celebra os 140 anos de João do Rio

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Ultimamente muitas das minhas amigas, escritoras ou não, estão reclamando das redes sociais. Para elas também a coisa toda se parece com funções acumuladas. Quem inventou que psicólogo precisa produzir conteúdo pra rede social? Quando foi que o trabalho de criar arte virou também o de criar um feed estimulante, cheio de vídeos fazendo dancinhas e apontando para palavras flutuando na tela? Nada contra dancinhas, tenho amigas que dançam. Mas eu não quero.

Jarid Arraes



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Os protagonistas do meu último livro se perguntam o que temos para substituir os velhos costumes, porque estes estão desaparecendo sem que tenhamos encontrado substitutos. Não quero cair na nostalgia. Não defendo os modos de vida que dominaram o século 20, mas meus personagens se perguntam como viver sem modelos. Não sabemos o que nos sustenta. No mundo que deixamos para trás, havia um senso de comunidade. E também muita repressão, é claro, mas agora estamos sem modelos. E isso ocorre também nos relacionamentos. Costumava haver normas não escritas sobre como fazê-los prosperar, e agora isso está desmoronando

Sally Rooney


Tesourinho

Kevin Johansen + Liniers, não preciso dizer mais nada - se você não sabe quem são, vale a pena dar uma pesquisada. um é um dos maiores nomes da música contemporânea argentina e o outro um dos maiores desenhistas da história do país hermano


@ da Semana

(Com todos seus defeitos, eu ainda AMO o Instagram. Graças a um tantão de pessoas bacanas que criam conteúdo por lá, a rede social é uma das minhas maiores fontes de inspiração)

A post shared by Las Cholitas Escaladoras 🇧🇴 (@cholitasescaladoras)


Uma das minhas contas favoritas do Insta, a Cholitas Escaladoras traz fotos de tirar o folego das guias montanhistas em trajes tradicionais bolivianos. “As 'cholas' ou 'cholitas' são um patrimônio cultural e identitário da Bolívia. Por todo o país, as mulheres de origem indígena e mestiça buscam seu espaço usando roupas que representam uma verdadeira luta cultural contra a colonização europeia”, explica a agência de notícia EFE.


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